SALMO 42: 1Fazei-me justiça, ó Deus, e defendei minha causa contra uma nação ímpia. Livrai-me do homem doloso e perverso, 2pois vós, ó meu Deus, sois a minha fortaleza; por que me repelis? Por que devo andar triste sob a opressão do inimigo? 3Lançai sobre mim a vossa luz e fidelidade; que elas me guiem, e me conduzam ao vosso monte santo, aos vossos tabernáculos. 4E me aproximarei do altar de Deus, do Deus de minha alegria e exultação. E vos louvarei com a cítara, ó Senhor, meu Deus! 5Por que estás abatida, ó minha alma, e te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, porque ainda hei de louvá-lo: ele é minha salvação e meu Deus.
Diz o salmista: “Por que estás abatida, ó minha alma?”
Ao reler esse salmo, constato que nem sempre estou feliz. Nem sempre estou de
bem com a vida, como dizem alguns. Realmente, há dias em que a alma parece
pesar mais do que o corpo.
A saudade, o medo e as dúvidas podem lançar-me à deriva. Mas
também a raiva, a inveja e a soberba. Embora ambas as situações possam fazer-me
perder o rumo e até o sentido das coisas mais simples, nem sempre significam que
partem da mesma fonte.
Nessas horas, surge um vazio silencioso. Aquela aparente
depressão parece bater à porta. Uma tristeza difícil de explicar, mas
impossível de ignorar. É como se algo dentro de mim estivesse fora do lugar.
Surge um verdadeiro sentimento de fragmentação.
O salmista conhece essa experiência. Ele ousa perguntar a si
mesmo: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro
de mim?”. A coragem de perguntar-se, confrontar-se e reconhecer o
momento é o primeiro passo para um novo caminho: o recomeço, o retorno.
No caso do salmista, não se trata de alguém que abandonou
Deus, mas de alguém que sente Deus distante. Sua dor não nasce de um pecado
pessoal imediato, daqueles que nos afastam dos irmãos, de Deus e até de nós
mesmos. Trata-se, antes, de uma situação maior, coletiva.
O mundo ao seu redor parece ter perdido Deus, marcado pela
opressão, pela injustiça e pelo poder daqueles que parecem controlar a
história. O salmista sofre porque já não reconhece mais o seu lugar nem o seu
destino.
Eis aqui um detalhe importante: nem todo vazio humano e
espiritual nasce do pecado pessoal. Há vazios que brotam do cansaço, da
solidão, das feridas causadas pelos outros, das estruturas injustas e das
decepções acumuladas. Gememos sob o peso do tempo, suspirando pela eternidade.
Mas há outro tipo de vazio — e é dele que preciso falar com
verdade diante de Deus. Desse não posso fugir. Quantas vezes confundo o vazio
provocado pelo mal que sofro com o vazio que nasce do mal que pratico? Quantas
vezes atribuo minha tristeza apenas às circunstâncias, quando ela nasce de
escolhas mal feitas, de atitudes egoístas, de uma fé negligenciada, de um
coração autossuficiente?
Há vazios que não me foram impostos. Eu mesmo os construí,
pouco a pouco, quando me afastei do que dava sentido à minha vida e busquei
satisfazer apenas os meus interesses.
O fato é que Deus não se ausenta; somos nós que nos
ausentamos d’Ele. E essa ausência nem sempre é ruidosa. Ela acontece aos
poucos: quando a oração fica para depois, quando o perdão é adiado, quando a
Palavra deixa de ser escutada, quando o próprio “eu” ocupa o centro que deveria
ser de Deus.
O salmista chora porque sente Deus distante. Eu, muitas
vezes, sinto Deus distante porque fui eu quem me distanciei. Ainda assim, o
Salmo não termina na dor. Ele aponta um caminho. O salmista fala consigo mesmo
e ordena ao próprio coração: “Espera em Deus!”
Não é um sentimento. É uma decisão.
Esperar em Deus não significa cruzar os braços. Significa
voltar-se novamente para Ele, mesmo sem forças, mesmo sem consolo, às vezes até
sem vontade.
Eis aqui o ponto decisivo: quando olho apenas para meus
adversários, para minhas angústias e fracassos, afundo ainda mais. Quando me
afasto dos outros com a presunção de que é sempre o outro o culpado, a razão
dos meus sofrimentos, acabo ferindo a mim mesmo. Quando alimento o isolamento
com a desculpa de que “ninguém me entende”, aumento a distância que me separa
de Deus e dos irmãos. Quando dou lugar à inveja, à raiva e à vingança, perco-me
de mim mesmo e também de Deus.
O afastamento de Deus quase nunca é brusco. Ele começa
pequeno, discreto, aparentemente inofensivo. Mas há retorno. Se espero em Deus,
volto-me a Ele. A esperança reacende a memória da Sua presença. Lembro-me de
quem Deus foi para mim, de quantas vezes Ele já me sustentou, de quantas quedas
não foram o fim.
Mesmo quando caio de novo, insisto. Mesmo cansado, volto.
Esse movimento interior, ainda que pequeno, já é graça.
Pouco a pouco, o caminho de retorno se abre. A solidão dá
lugar ao encontro. A tristeza não desaparece de imediato, mas já não governa o
coração. O vazio começa a ser preenchido, não por distrações ou compensações,
mas por sentido.
Como diz a oração atribuída a São Francisco de Assis: “É
dando que se recebe.” Quando saio de mim, quando me dou, é aí que
reencontro Deus.
O vazio, ou como dizem alguns, a “crise”, revela sua verdade
mais profunda. Ele não é apenas ausência, nem apenas fruto do pecado. Pode ser
também chamado: chamado à conversão, ao reencontro, a recolocar Deus no centro
e a renovar a esperança.
No fim, descubro: o vazio que mais dói pode tornar-se espaço
de plenitude. A alma que esperou em Deus aprende, enfim, a cantar de novo. E
aquilo que parecia perda transforma-se em caminho de retorno Àquele que nunca
deixou de me esperar.
ORAÇÃO
Senhor meu Deus,
há vazios dentro de mim que não soube nomear
e distâncias que eu mesmo construí.
Procurei culpados fora, quando a raiz do meu cansaço estava no meu próprio
coração.
Tu conheces minha alma quando ela se perturba,
quando perde o rumo e quando já não tem ânimo para voltar. Conheces também
minhas quedas, minhas escolhas erradas e
os silêncios em que deixei de Te buscar.
Hoje coloco diante de Ti
o vazio que nasce do meu pecado
e o vazio que nasce da dor.
Não quero mais confundi-los
nem usar um para justificar o outro.
Ensina-me a esperar em Ti, Senhor,
não como quem se resigna,
mas como quem decide recomeçar.
Reconduze meu coração às fontes vivas,
onde minha alma volta a respirar.
Que a memória da Tua presença
seja mais forte que minhas culpas.
Que o desejo de voltar
vença o medo de encarar quem me tornei.
Que a esperança me devolva a alegria
de caminhar contigo.
Quando eu estiver distante, chama-me.
Quando eu cair, levanta-me.
Quando o vazio gritar,
faz dele espaço para a Tua graça.
Em Ti coloco minha confiança,
pois só Tu transformas a ausência em encontro,
a tristeza em caminho
e o vazio em morada plena.
Espera em Deus, ó minha alma.
Amém.
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1 Comentários
Como eu lhe disse este é um dos seus melhores textos.
ResponderExcluirQue possamos aprender a cada passo do caminho a esperar em Deus!